POUPANÇA E CONDICIONAMENTO
MANUELA LOURENÇO PIRES TORQUATO
Mestre em Direito e Desenvolvimento | Procuradora do Município de
Fortaleza
A análise que ora iremos iniciar, situa-se no âmbito da Sociologia
Jurídica e do Direito Administrativo. No Brasil é bem pequena a tendência à
poupança. Estamos falando de ação relacionada com o verbo poupar, que por sua
vez objetiva investimento no que for prioritário. Parece que o grande óbice à
poupança está relacionado com duas vertentes públicas – a dos serviços, devendo
o Estado, sobretudo priorizando o que é sua atividade fim, investir naquilo que
satisfaça as necessidades essenciais do cidadão, sem a qual esvazia o bem
comum. A 2ª vertente seria as das atuações do Estado no Campo do
desenvolvimento (integral, não se esqueça). Não realizadas as prioridades, é
até perfeitamente questionável a existência do Estado.
Citamos de Dalmo Dallari: bem comum é “o conjunto de todas as condições de vida
social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade
humana” (1998. 20ª. p/07) na perfeita e até inesperada criação de João XXIII um
Papa surpreendente. Poderia se dizer dele, plagiando Fernando Pessoa, sobre
Jesus Cristo (perdoem-nos a audácia) que não freqüentava
Faculdades nem bibliotecas, mas era um ser humano de primeira água. De novo
corremos o risco de estarrecer alguém com a comparação, porque esse Papa
seguramente freqüentava ambas, mas não esqueceu sua
humaníssima condição de filho de gente que trabalhou a terra e a fez produzir.
Quanto a Cristo, afigura-se-nos que o poeta
acreditava como nós: que Cristo é a figura humanizada de Deus.
Feito este parêntese que recoloca a fé e a política em seus respectivos lugares
e não afasta a poesia dos problemas dos seres humanos, voltemos ao tema da
poupança. Já que este trabalho é acadêmico entendemos conveniente indicar o
significado econômico de poupança. É a parcimônia. Virtude que parece pouco
defendida pelo povo e pelo Estado brasileiro. Colhemos esta informação em
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1986).
Além do renome do autor, consideramo-lo fonte fidedigna porque é sabido que um
dos melhores livros sobre as origens dos brasileiros é de um familiar seu –
Sérgio Buarque de Holanda.
Assim, poupar significa que não se gasta desordenadamente e se retira parte do
capital atual para colocá-lo em situação de ser aplicado em investimentos
futuros, atendendo a fins prioritários, então.
Foi consolador para nós ler em “O povo”, jornal de Fortaleza, publicado no
Domingo, 5 de Agosto de 2001, o trabalho/desabafo de Eduardo Diatahy B. de Menezes sob o título de “Apagão e ameaça à
cidadania”. O professor da UFC e da UECE teve seu trabalho dado à luz (com toda
a propriedade!) nas análises econômicas, no caderno de economia do prestigiado
jornal. Certamente isso ocorreu porque essa manifestação não apenas é emanada
de um renomeado professor, também por encontrar eco em nós, sofredores de
ameaças de “Apagão”.
Poderão algumas pessoas questionar os interesses científicos de tais
manifestações – a do Prof. B. de Menezes e a nossa. Desde já reconhecemos que
nossa visão da ciência, não é e esperamos que nunca o seja, afastada das
realidades da vida. Orgulhamo-nos de nossa atividade intelectual, mas
esforçamo-nos por vê-la sempre atender à vida, mesmo que sobretudo dos que nem freqüentam bibliotecas (o que é uma pena) nem faculdades
(reconhecendo aliás que o estudo deve ser para todos, mas que não é única opção
ser graduado em seja lá o que for!)
Sendo o bem comum, como já verificamos, algo inerente à sociedade e ao
desenvolvimento integral da personalidade humana, é-nos evidente que estas
considerações não se deslocaram do eixo, porque nem poderia, o conceito fazer
qualquer restrição ao que não é comum. Ele apenas trata do que é comum aos
homens comuns, mas estes são, inevitavelmente os homens em sua totalidade. Pode
mudar a concretização do bem comum, mas são os mesmos parâmetros de
essencialidade, desde sempre. Poderia referir-se as quatro liberdades
fundamentais ou as necessidades humanas fundamentais mencionadas por autores de
Direito Alternativo.
Está visto que os seres humanos poupam a fim de suportarem investimentos
futuros em algo tão importante que justifique uma economia, um não gastar
presente. Poupar ou não, muito ou pouco é manifestação cultural.
Talvez pelos esbanjamentos da Natureza neste quase continente brasileiro, o
país não é especialmente interessado em poupar. Dificilmente se vê alguém
empregado, deixar de lado um pouco de dinheiro que já auferiu, para satisfação
de necessidades duradouras e futuras, como a aquisição de casa, veículo de
locomoção, enciclopédia. No jornal anteriormente citado, lemos em 12 de agosto
de 2001 que “falta de poupança agrava a crise” (sic) – caderno de economia,
folha 28. E verificamos que o articulista colheu do novíssimo Dicionário de
Economia as idéias de que ao verificar-se que “a
poupança supera os investimentos, surge uma tendência recessiva, de receita e
do nível de emprego”. Essa afirmação de recessão parece encontrar eco na
sociedade brasileira do início do séc. XXI. Infelizmente a razão de tal pendor
recessivo não casa, no entanto com uma superlativa poupança, ao contrário. E a
inflação já nos ameaça, sem que como razoavelmente se afirma... “os
investimentos excedem a poupança...”, visto que embora ela seja mesmo de
pequena monta, o total de investimentos nem sequer parece ter crescido
substancialmente. Os dados do artigo levam-nos a concluir no entanto que é
correta a afirmação de que o hábito de poupar é realmente pouco difundida no
Brasil. Em abono desta conclusão indicamos as palavras do Prof. Doutor em
economia, Paulo Jorge Neto, entre outros, pois fica claro que primeiro
deveremos crescer, para aumentarmos significativamente a poupança.
Evidentemente como professora de Direito e procuradora de um Município com
forte carga de pobreza, não desconhecemos que só crescer, não resolve o
problema. Há muitas implicações estruturais que não se afiguram preocupar,
tanto quanto deveriam, o poder público ou até os administradores privados.
O poupar está mais relacionado à necessidades de deleite – comprar um aparelho
de som, um televisor, do que a atividades (e não inércia) de investimento.
Quando muito, poupar é sinônimo de trocar de automóvel por mais novo, ou mais
confortável. Os sonhos são muito mais de consumo quase imediato e muitas vezes
supérfluo, ou meramente ostentatório. E por vezes
acontece mesmo em camadas com menor poder aquisitivo. Não é raro ouvir
estórias, contadas pelos patrões ou exageros de empregados de “faustosas”
festas de 15 anos, aparelhos de som potentes em casinhas pequenas e coisas
assim. Repara-se que as princesinhas de 15 anos têm muitas vezes um futuro de
desemprego ou sub-emprego ou até prostituição... de
maior ou nenhum luxo! Parece que não se coloca como tão importante, para elas e
os progenitores, a oportunidade de estudar mais, de aprender (bem) outro
idioma, de se especializar naquilo que já se almeja.
Em regiões do país de mais intensa miscelânea social, as coisas mudam um pouco
de figura, mas olhar com olhos de ver este país, leva-nos a concluir que poupar
não parece interessante à maioria de seus cidadãos.
Para os governos (que temos merecido ou não) durante o século XX, não tem sido.
Se não, como se justificaria o constante recurso ao crédito sempre fácil de
obter e difícil de pagar dos organismos internacionais e de alta banca
internacional.
O prof. Diatahy deixa-nos a idéia
de que o apagão poderia ser evitado se o governo estivesse realmente preocupado
em ler nas perdas de águas dos reservatórios ao menos o anúncio de que nos vai
faltar energia elétrica.
Olhamos da janela do edifício onde trabalhamos em munus
público e as pás dos geradores de energia eólica na Praia Mansa não se mexem e
perguntamos agora – Por quê?
Deliciamo-nos a passar na litorânea que me conduz por vezes à praia do Japão
(tomáramos que pudéssemos viajar ao país da Terra do Sol Nascente que se tem
feito sobretudo com poupança!) com os aparelhos do mesmo tipo, funcionando e perguntamo–nos por que uns funcionam e os outros já não?
E até quando funcionará o projeto da Pracinha? Lembramo-nos de ver a
Vice-Prefeita de Fortaleza, demonstrando o desejo de ver transformados os bons
projetos em realidade – de bons programas. Confessamos aos leitores que nossos
botões já estão cansados de não ter respostas! Onde está a continuidade
governativa? Seria mais fácil obter soluções se a poupança realizasse o
planejamento que viesse a ter realidade eficiente.
Fica-se obviamente na situação relatada pelo professor B. de Menezes concluindo
seu trabalho – é como a ridícula questão estatística “de um cidadão que tivesse
os pés num forno a 70º e a cabeça num refrigerador a 0º, seria legítimo dizer
que a temperatura média do seu corpo estaria normalíssima a 35º ?!”
Afinal de contas , nós, que não vivemos no palácio da Alvorada, nem em casas
milionárias, que já poupávamos desde dinheiro a energia elétrica, estamos nos
vendo em palpos de aranha para conseguir ficar na estreiteza do consumo que a
imprevidência governamental, o desperdício coletivo de energia termo-elétrica e a não diversidade de fontes de energia,
nos estão colocando. Por nossa parte não é sacrifício desligar no trabalho o ar
condicionado, mas é desligar em casa o freezer, pois ele representa menos idas
ao supermercado, ao açougue, permitia não cansar tanto os empregados. Como
fazê-lo se nos vemos obrigada a quase não termos conservação no gelo?
Este é um dos pontos dos incômodos que sofremos. E os outros: não poder ler a
noite, quando a insônia vem, restringir o prazer relaxante de música que
ouvimos com suavidade e sem afetar o sossego dos outros, a falta de uso dos
auditórios em universidades – todos os prazeres da cultura. Que não se comparam
à frustração dos escritores diurnos (nossas crônicas, poesias e trabalhos
jurídicos não têm assiduidade tão grande!) que se vêem
ameaçados de ter de desligar o computador? Tivemos a experiência economicamente
desagradável esta semana. Estando em revisão dos textos de um livro que
esperamos ver publicado, descobrimos que a impressora não funciona bem por que
as tintas entupiram a cabeça da impressora, por falta de uso!
E agora Sr. Presidente? Que agência ou concessionária vai ressarcir este
prejuízo? É pequeno, mas era evitável e revela injustiça.
Para não falar de mais grave de pais que precisam desligar ventiladores de seus
filhos em casinhas baixas, - e quase promiscuamente arrimadas em outras nas
mesmas condições. Os senhores da área de saúde não receiam que a tuberculose
avance mais, por que além de não haver chuvas para lavar os espaços habitados,
o sol pouco entra nessas pequenas casas, o vento está tapado pelos
arranha-céus, não se ligam ventiladores e o povo come cada vez menos e pior? E
se a tuberculose aparecer, quem se dispõe a ajudar o pobre doente, a visitá-lo,
a medicá-lo em casa? Lá vai o infeliz para a fila do ônibus disseminar o
bacilo, espremer-se entre outros sub-nutridos, e à
noite come só pão e bebe café (quando há). Note-se que as cidades estão cada
vez maiores e nelas as inclemências do tempo são ainda mais funestas do que no
campo.
Quem empresta dinheiro a um pobre? E quantos são os remediados que pagam a
tempo e horas o que devem? E por que atrasam, pagam juros, pedem emprestados,
pagam mais juros. E não se empresta, porque empréstimo é coisa de negócio e
estes precisam ter garantias! Que garantia pode dar quem está cada vez mais
pobre?
Quem come mal (e intoxicado) quem bebe cada vez mais produtos químicos nem
sempre confiáveis e muitas vezes acessíveis por que sua produção está quase
isenta de impostos? É pensar no tal refrigerante cujo nome está mais
disseminado do que o de Cristo! ...
Acrescente-se a tudo isto o ar (e o resto) poluído por imensos lixões a céu
aberto. Agora é que as usinas de reciclagem que estiverem funcionando, deixam
de operar! É que quase todas elas não usam o gás do lixo para reciclar o
lixo... Esta nem vale a pena tentar explicar ao ARC (Marciano da Veja)!
E se deixarem de operar vai recomeçar o desemprego de pessoas que se dignificam
tratando o lixo. Esperamos ao menos que Dora Andrade, diretora da escola de
dança – EDISCA, consiga fazer beleza de novo, sobre essa frustração. Mas só o
gênio dela conseguiria...
Tudo porque, se houve poupança, ela não foi usada para investimentos com
objetivos sociais. Banqueiros e sistemas econômicos de capitalismo
descontrolado (e controlador) são mais importantes para muitos do que o mero
bem estar digno do povo. Do povo que os elegeu, os reelegeu ou tolerou as tramóias das reeleições, reforcemos.
Diz em seu artigo o professor Diatahy B. de Menezes
que na Alemanha e na França se fez planejamento de diversificar fontes e
técnicas de energia. Certamente estas duas atividades estavam desde há muitos
ligadas. Quando se poupa dinheiro, naturalmente não se desperdiçam bens caros e
cada vez mais raros.
A idéia de poupar com caráter quase totalmente
privado, parece ter surgido no séc. XIV na Península Itálica. Na Ibérica já
estava detectada no séc. XVI. Inicialmente o caráter era beneficente e estava
relacionado a um espírito de solidariedade, bem demonstrado em tantas obras
como as Santa Casas, Casas Pias, Ordem Terceira . Vimos sinais desse tipo em Ghand e Bruges, belíssimas
cidades belgas. Extasiamo-nos em 2000, com o magnífico prédio da Caixa Geral
dos depósitos em Lisboa. Essa é apenas uma das instituições de poupança do
país. O hábito de poupar que tem sido mais um motivo de gozação dos brasileiros
a respeito de seus colonizadores, fez com que Portugal passasse o século XX sem
precisar de grandes empréstimos endividantes. Por que
é preciso deixar claro isso – quem demanda empréstimos, fica devedor.
Em outros tempos do dinheiro e da palavra empenhada, era assim. Hoje por vezes
nem de um simples, “desculpe”. Do caráter privado de entesouramento mais seguro
do que esconder no colchão a poupança transformou-se em atividade pública,
rentável ao ponto de muitíssimos modestos depósitos permitirem lucros que
levaram à construção de palácios como esse de Lisboa. Foi na Alemanha e na
Suíça que surgiu esta nova versão, bem institucionalizada e apoiada nas
garantias de solidez institucional e monetária (o que desgraçadamente temos de
reconhecer que o Brasil não tem!)
Daí surgiram as Caixas Econômicas de Depósito (e não precisavam de trocar o X
para o povo acreditar, ainda que pouco, nelas!).
Os objetivos conforme a enciclopédia Barsa eram:
1- Guardar com segurança as poupanças mais humildes.
2- Pagar aos donos juros módicos (sem os riscos dos investimentos,
acrescentamos nós);
3- FAZER CIRCULAR essas poupanças em BENEFÍCIO GERAL (grifo nosso)
Caberia uma referência aos objetivos do FGTS, no Brasil? Dado seu
desvirtuamento e o estranho uso do governo em atividades que deveriam ser ônus
dos governos, entendemos que seria inútil.
Refere a Barsa que no Brasil a mais antiga Caixa
Econômica, data de 1831, fundada por José Florindo de Figueiredo Rocha.
Atrevemo-nos a cogitar que seguindo a tradição portuguesa. Em 1860 outras se
seguiram. E em 1861 o Império reconheceu que deveria haver instituições oficiais
com esse objetivo e criou as primeiras. Em 1874 houve novo impulso à criação de
caixas nas capitais das províncias. Em 1887 veio à luz novo regulamento. A
República produziu a redução do número de Caixas. A Revolução de 30 deu caráter
mais amplo às que existiam. As boas idéias de
Francisco Solano Carneiro da Cunha frutificaram em 1934, levando à unificação
da Caixa Econômica Federal.
Não destacamos o monopólio de exploração das loterias de Esporte, por que até
que nos convençam do contrário, descaracteriza o objetivo de poupança, mas
alimentam os sonhos dos pequenos e grandes ganhadores apenas pela sorte e pelo
mínimo (às vezes nem tanto) gasto nesses sonhos. Uma forma de poupança?
Atrevemo-nos a dizer que não.
Voltamos ao problema de por falta de entesouramento e, investimento público,
sermos obrigados a suportar racionamento de energia elétrica num país em que,
pelas dimensões, o problema talvez não seja de fácil solução, mas em que as
facilidades da natureza – energia das marés, das quedas de ar, do vento e do
sol, fornecem muitas alternativas que viabilizam solução a nível local ou
alternativas viáveis com muitas pesquisas e algum investimento. Na revista
Época de 30/07/2001 lemos que se estão instalando na Amazônia, painéis de
energia solar para manter as comunicações e também encontramos em jornais
referência a piscinas de grandes dimensões, geradoras de energia elétrica. É
decerto inspirador.
Tentem os senhores ao menos saber quem instala energia solar no Ceará...
Ficarão desanimados certamente. Pesquisas foram realizadas pela U.F.C. e
UNIFOR, parecem ter sido barrados pelos altos valores iniciais. E o poder
público mostra-se alheio às pesquisas. Esta é a realidade, talvez por que a
energia elétrica deste criativo país era baseado apenas nas usinas termo
elétricas. Espera-se que tal monopólio não tenha face escura...
Daremos agora enfoque administrativo à natureza jurídica desta situação de
racionamento de energia, pelas autoridades administrativas.
Trata-se daquilo que Sundfeld (1991) designa como condicionamento na modalidade
de imposição de deveres administrativos, no caso, obrigação de não fazer e de
suportar. Pois se a potência de voltagem oferecida diminuiu e há obrigação de
gastar menos quantidade, cremos que se configura o fato até como dupla
imposição. Além de que o suportar é triplo, uma vez que não chegasse tudo isto,
ainda o consumo por KW ficou mais caro. Ou seja, temos menos potência,
utilizamos menos energia elétrica e ainda por cima a unidade fornecida está
mais cara. Por que as empresas concessionárias lucram menos...
É que se coloca o problema: é condicionamento ou já se comporta como
sacrifício?
Sundfeld, inserindo este tópico na atividade ordenadora do Estado, destaca os
respectivos princípios, Citamos
a) Prioridade do interesse público em relação ao privado;
b) Legalidade;
c) Proteção do valor liberdade;
d) Necessidade do devido processo judicial para privação da liberdade e da
propriedade;
e) Indenizabilidade dos sacrifícios;
f) Impossibilidade de sacrificar os direitos constitucionais de liberdade.
Exatamente por ser questionável a colocação quando afeta direitos
constitucionais é que houve revisão de metas, por exemplo, no que tange a quem
trabalha em casa ou mais relevante ainda, a quem deve cuidar de doente. Aí
ficaram a salvo o direito ao trabalho, cada vez mais difícil de exercermos em
tempos neoliberais) e o direito à saúde.
Fica muito trabalhoso defender que este condicionamento não restrinja o valor
liberdade, abstratamente considerado, em termos de lazer. Dissemos que,
pessoalmente estão nos incomodando as restrições aos prazeres da cultura,
desfrutados em casa, no sossego do lar e mantendo o sossego dos vizinhos. Cabe
referir, lateralmente, que conhecemos muita gente que aproveitou para ficar
mais em casa por ter acesso mais fácil à TV dos canais internacionais ou dos
excelentes canais brasileiros, a cabo ou então por outro sistema eletrônico.
Não apenas por medida de economia, que até pode não ser tão substancial, mas
sobretudo por medida de segurança. Felizmente a capital do Ceará conta com um
Centro Dragão do Mar onde se pode desfrutar e por preços módicos, de boas
distrações culturais, não esquecendo os concertos por um real, do Teatro José
de Alencar (entre outros projetos aí postos em atividade) e os vários festivais
de canto, por exemplo. Na Praia de Iracema são raros, felizmente os casos de
agressão, furto de veículos etc, mas a ida e a volta
nesta cidade já tão violenta? Ficar em casa, diminuía a insegurança, mas por
vezes isola as pessoas. Numa situação em que, nas cidades, principalmente as
doenças psicossomáticas vêm crescendo em tipos e números de afetados,
entendemos que deve o poder público levar em consideração tais fatores, embora
reconheçamos que não são prioritários. É por que afetam a saúde integral das
pessoas .
Diz Sundfeld no mesmo espaço (pág 65) citando O.A.B
de Mello que é pressuposto de uma ordem social estável, que todos e cada um,
possam sentir-se, resguardados e garantidos. Decididamente este racionamento de
energia, Não que cremos que é previsível e evitável já desde a vigência da
Constituição Federal de 1988, Não está demostrando aos cidadãos que o estado
brasileiro intente (ao menos isso) a estabilidade referida, cujos parâmetros se
configurariam em sentirmos-nos resguardados e garantidos.
Não há segurança em nossas praças, casas (mal iluminadas), não se está a salvo
de cair em nossas ruas esburacadas, de quebrar peças de veículos em suas mal
pavimentadas e todas pouco seguras, num Ceará onde o número de seguranças (ou
“seguranças”) privados está sendo maior do que o efetivo policial, ainda por
cima este, muitas vezes jogado à má sorte de quem tem salário aviltante,
moradia pobre e desconfortável, preparação insuficiente e quase nenhum
acompanhamento psicológico, sociológico ou médico (embora as instalações
hospitalares das forças armadas sejam exemplo de bom atendimento).
O prof. Carlos Ari especifica bem que, a atividade ordenadora apenas poderá
impor sacrifícios (figura diversa do condicionamento) quando os bens afetados
forem patrimoniais, os únicos possíveis de serem sacrificados, Ora no caso do
fornecimento de energia elétrica, é evidente que o bem sacrificado não é
patrimonial embora, pelo aumento de gasto com o fornecimento de KW até se
vislumbre, redução de despesas para as classes hiposuficientes
que, sobretudo poupam energia por que realmente não têm como pagar mais. E se
cogitarmos de quantidade gasta, é evidente que um consumo de energia elétrica,
abaixo de 150 KW/mês já indica a necessidade econômica de gastar menos (que certamente
acontece com a maioria da população brasileira), tão mal remunerada ou – o que
é altamente elogiável- com forte consciência de que o desperdício (seja do que
for) é inaceitável neste país de indicadores sociais terríveis.
Analisando a MP nº 2148-1, de 22 de maio de 2001 e a 2.198- 5 de 24 de agosto
de 2001, verificamos que elas têm alguns pontos positivos e não contestamos a
necessidade de ter sido mesmo usado o formato, (que não merece o nosso apoio)
de M.P pois aí haveria mesmo relevância e urgência. Já não nos parece, ao invés
que se atenda à LEGALIDADE, usando medida provisórias ( Ver, of. cit. Pág 77) Já que Mª.Pª não é mesmo
lei, em nosso entender pode até constar da Ementa a expressão “e dá outras
providências”, o que é detestável em lei.
O que constatamos e veemente é que só em maio de 2001 se tenha verificado a
relevância bem como a urgência, de tomar medidas legislativas a respeito de
algo que se anunciou desde os discursos de Fernando Henrique Cardoso, quando
era Senador, a estudos (?) para a privatização das concessionárias de energia
Elétrica etc... Não deve omitir-se também que o problema da energia elétrica
tem estado no país ligado ao da captação e fornecimento de água e que, não por
acaso se deseja federalizar o aproveitamento das águas do país, um dos mais
ricos do mundo, neste aspecto... Veja o leitor se descobre nas cartas de
intenções - do devedor: Brasil, ao credor FMI - alguma referência contrária ao
descaso com o bem comum que parece estar no alegado desconhecimento do Presidente
e “seus ministros” quanto a estes fatos.
Entre os apontamentos positivos de medidas indicadas encontram-se no artº 20 os incisos XI, XII, XIII, XIV, XVII, (idênticas na
M.P. 2198-5) a existência de programas de curto, médio e longo prazo, conforme
o artigo 40 do inciso III do art. 6º do art. 8º V, idem a pluralidade anunciada
do § primeiro do artigo 3º (idem) e do inciso VII do art. 5º (idem) bem como a
boa intenção (esperamos que não fique nisso) do inciso III, a realidade prática
já verificada felizmente do inciso V do mesmo art. 5º (idêntica disposição na M.Pª nª 2198-5 de 24/08/2001).
Espera-se que o propósito no caput do art. 7º seja praticado e com bases
jurídicas, apenas, descartando a politiquice eleitoreira. O artigo 8º reforça a
idéia de emergencialidade.
Que não se esqueçam os estudos e mudanças estruturais, é o que desejamos.
Assusta-nos a generalidade do § 4º do artigo 8º. Afinal cada vez que se criam
exceções à regra, é sempre preciso garantir que elas não esfarrapem a regra e
que a competência não passe a ser trocada pelo açodamento dos apadrinhados e
apadrinhadores.
O artigo 14 aliás, já modificado, revelou esse açodamento, que em termos de
energia elétrica, decididamente não é desejável, por seu caráter estratégico.
Não se pensou que os meses em que se fez a média do ano 2000 são de férias, em
que se espera, o consumo doméstico seja bem menor, mas neles ocorrem muitos
festejos populares e que portanto calcula-se que haja dificuldades em diminuir
agora como antes, o consumo público.
As revisões aconteceram justamente por se não estudar com o devido cuidado e
estão crescendo as exceções (sem balizamentos definidos) ao racionamento. O
povo atendeu até bastante bem os pedidos governamentais da redução de consumo,
mas o fato é que, em alguns casos, ela foi flagrantemente injusta, como
referimos no início deste trabalho.
O § 2º e o 3º do art. 14 e do § 3º do art. 16 também, bem como o 1º § do art.
18, foram decididamente abusivos. E não estabeleciam critérios (nem o caput o
fez) para os cortes.
Não se percebe muito bem a substância do § 2º artigo 15. Calculamos que se
refere à possibilidade de redução do consumo ser total, o que fica difícil de
imaginar a menos que a energia elétrica das residências passasse a ser gerada
por fontes alternativas ou se fechasse a residência!
Lembramos aos leitores que este trabalho não tem por finalidade nem intenta
projeção histórica ou crítica a posições jurisprudenciais já existentes.
Trata-se de reflexão sócio jurídica baseada sobretudo nos fatos e na necessidade
que se impõe a qualquer administrador que se preze, de atender aos princípios
da Administração pública e das diretrizes constitucionais. Não fizemos por
exemplo uma análise de todas as M.P sobre o assunto, apenas da primeira e da
mais atual..., de agosto de 2001. Não é demais citar o autor que elegemos sobre
o tema “Todo o Estado de Direito governa-se por uma fundamental finalidade:
fazer com que o exercício do poder político não elimine o necessário espaço de
liberdade individual” (pág 70). Se a lei não pode
tudo, menos ainda o Executivo, cujo âmbito é exatamente esse, só o de executar.
É claro que só se podem executar bem, leis bem elaboradas, sociologicamente
estudadas, tecnicamente capazes e eficientes, para a mudança que se impõe. Não
se querendo nada disto é conveniente que desde logo se proclame a
desnecessidade de Sociologia. Pró-legislativa, da Técnica de Elaboração das
Leis, da Hermenêutica jurídica, dos Tribunais e já agora, da existência do
próprio Estado! Ah, íamos esquecendo que alguns parecem ainda defender a
desnecessidade da língua Portuguesa, tanto que a abastardam, ou da gramática,
pelo muito que a desconhecem. Que não nos sirva a carapuça ou as carapuças! De
outro modo parece-me que se está usando o prazer do poder pelo poder. Algo tão
abominável que tem levado a todas as arbitrariedades que a humanidade tem visto
e que culminaram com o terror sobre N. York e Washington em 11/set/2001 em que
o objetivo foi a destruição de todo um sistema político/econômico do mundo
ocidental e por isso nos deixou anômicos,
estarrecidos. Afetou não apenas os americanos do norte ou do sul, mas todos os
que têm consciência de que não respeitando a lei, se desrespeita a VIDA (até do
planeta) e a DIGNIDADE HUMANA.
Entenda-nos o leitor: não estamos defendendo a desobediência civil ou o sistema
capitalista, longe disso. Estamos apostando ainda e sempre, na LEI como
controle social, na Constituição como balizadora do poder e definidora dos
direitos do ser humano, situado no contexto do planeta Terra – A CASA MÃE de
todos os povos que a habitam, vivendo em diversidade e harmonia, o que
acreditamos possível, mas dependendo de regras e de limites.
E permitimo-nos terminar com um elogio ao sofredor povo brasileiro que tem
entendido a necessidade do racionamento de energia e que vivendo em condições
por vezes tão miseráveis – heróis anônimos que o poder não vê, não elogia, nem
prestigia - consegue manter a esperança e por vezes a alegria de viver.
BIBLIOGRAFIA
MENEZES, Diatahy Bezerra de. Apagão e ameaça à
cidadania. Jornal do Povo Fortaleza, 05 de agosto de 2001 Coluna Análises
Econômicas Caderno de Economia, pág. 28.
SUNDFELD, Carlos Ari: Administração Ordenadora in Direito Administrativo
na Constituição de 1988. Coordenação de Celso Antônio Bandeira de Mello, São
Paulo. Editora Revista dos Tribunais 1991
TEIXEIRA, Benedito Solução: Economia precisa crescer. Jornal o Povo,
Fortaleza, 12 de Agosto de 2001. Coluna Perspectiva. Caderno de Economia, pág 29.