HOMENAGEM
A GERALDO ATALIBA
ROQUE
ANTONIO CARRAZZA
Professor
Titular da Cadeira de Direito Tributário da Faculdade de Direito da Pontifícia
Universidade
Católica de São Paulo
O Egrégio Conselho Departamental e os formandos da Faculdade de
Direito da pontifícia Universidade Católica de São Paulo incumbiram-me de, nesta
sessão solene, prestar uma homenagem ao inesquecível e querido mestre, o
professor Geraldo Ataliba, recentemente falecido.
Saibam todos que aceitei esta incumbência com um misto de orgulho e de receio. De
orgulho, por poder falar em nome não só de juristas consagrados, como de uma
nova geração de bacharéis, que, muito em breve estará pontificando na cátedra, nos
Tribunais, no serviço público; de receio, pela grande responsabilidade de ter
que traçar o retrato de Geraldo Ataliba.
Espero cumprir a contento a missão que generosamente me confiaram.
Anima-me o fato de ter conhecido muito bem o pranteado mestre e, por isso, ter
podido apreciar de perto suas múltiplas qualidades. Deveras, fui seu aluno, nos
cursos de bacharelado, mestrado e doutorado.
Galguei, sob sua orientação, todos os degraus da carreira universitária e
acabei por sucedê-lo na Cátedra. Mas, acima de tudo, fui seu admirador e amigo.
Mãos á obra, pois.
Recentemente li um livro:
"Já repararam na diferença que existe entre o barro e a rocha" O
barro, qualquer chuva dilui, qualquer enxurrada carrega. A rocha, porém, enfrenta
a tempestade, levanta-se como um baluarte diante das ondas agitadas e, passada
a tormenta, emerge vitoriosa, mais brilhante do que nunca. Assim são os homens,
fracos ou fortes, como o barro ou a rocha".
Os primeiros resvalam para o mais cômodo, substituem o melhor pelo mais fácil, ficam
à mercê das opiniões alheias, deslizam pela vertente dos sentimentalismos e
acabam jogados em qualquer valeta da vida. São barro.
Os outros, fiéis a seus princípios, não perdem a identidade ao enfrentarem
situações adversas: as turbulências da vida mais e mais os agigantam. São rocha.
É a esta última classe de homens que pertenceu GERALDO ATALIBA.
Como se sabe, o homem revela-se por suas obras. E a obra de Geraldo Ataliba, garante-lhe
a imortalidade.
Trabalhador incansável, ainda que sem as aflições da pressa, soube empregar
generosamente o tempo e, por esse motivo, tornou-se dono de uma obra admirável,
que inclui doze livros (alguns, como seu monumental "Hipótese de
Incidência Tributária", traduzidos para vários idiomas). Deixou, ainda, centenas
de artigos e pareceres, publicados nas mais prestigiosas revistas jurídicas do
País e do exterior.
Geraldo Ataliba foi, também, um conferencista brilhante, que percorreu -pode-se
dizer - todos os grandes centros culturais da América Latina, além de ter
ministrado cursos na Espanha, na Itália, na França, em Portugal e nos Estados
Unidos. Participou igualmente, de múltiplos simpósios e congressos jurídicos, sempre
elevando o nome do Brasil.
Professor titular, por concurso, da PUC/SP e da USP foi um dos grandes
protagonistas da maior das aventuras humanas: a de pensar.
Mas Geraldo Ataliba foi, além de tudo, um homem de caráter, , de posições
definidas, que, pela força irradiante de suas qualidades, era por todos
respeitado (até por aqueles que, eventualmente, não compartilhavam de suas idéias).
Homens como ele são raros. Com efeito, Geraldo Ataliba estava entre os que não
desertam, entre os que não renunciam, entre os que não capitulam, entre os que
não se mascaram, entre os que não se degradam.
Geraldo Ataliba estava, enfim, com a verdade. Com a verdade que liberta, segundo
a palavra eterna de Cristo. E porque estava com a verdade, não se importava se
alguma vez corria o risco de ficar só.
Por isso tudo, o dia 15 de novembro de 1. 995 foi um dia particularmente triste
para o mundo jurídico nacional. Neste dia -em que comemorávamos mais um
aniversário da Proclamação da República - faleceu Geraldo Ataliba.
O melhor, o mais talentoso, o mais criativo dos juristas brasileiros da
atualidade.
Generoso com os amigos, homem permanentemente preocupado com a coisa pública, tinha
lances de verdadeira genialidade.
Nunca conheci alguém capaz de, como ele, levantar um auditório (e sempre de
improviso ). Nunca conheci alguém com tanta capacidade de escrever um artigo, um
prefácio, um arrazoado forense, um parecer.
Conta-se que, certa feita, uma mulher da alta sociedade perguntou para
Gustave Flaubert se era difícil falar e escrever bem. O grande romancista
francês não se fez de rogado: "Minha senhora, neste ramo ou é fácil ou é
impossível".
E como para Geraldo Ataliba isto era fácil.
Aquilo que, para os comuns dos mortais é, quase sempre, aterrorizante falar em
público, proferir uma conferência, escrever um livro, redigir um prefácio), para
ele era coisa absolutamente natural. Tudo brotava perfeito, pronto, acabado, como
Minerva da cabeça de Júpiter. Não havia rascunhos, apontamentos, tentativas
fracassadas.
Orador impecável, impressionava pela postura excepcional na tribuna, pelo
gestual, pelo timbre grave de sua voz e, acima de tudo, pela excepcional
destreza no manejo da palavra. Era um verdadeiro espadachim do verbo, que sabia
dar golpes certeiros, especialmente na defesa das instituições e dos sagrados
direitos da pessoa humana.
Demais disso, Geraldo Ataliba foi, sem dúvida, o grande responsável pela
transformação do Direito Tributário (antes um amontado de noções econômicas, financeiras
e pseudo jurídicas), num "ramo" de primeira
grandeza do Direito.
Deu-lhe dignidade constitucional. Fez com o Direito Tributário o mesmo que Michelangio com aquele desprezado bloco de mármore do qual
retirou seu monumental Davis, de uma força comunicativa estonteante, de uma
beleza ímpar, diante do qual os "Davis"precedentes
tornaram-se toscos bonecos.
Geraldo Ataliba foi, ainda, um Chefe de Escola, na acepção mais lídimas do
termo. Soube conduzir homens e a todos amparar com generosidade.
Ao invés de entristecer-se com as vitórias de seus discípulos, com elas se
regozijava como se fossem próprias. E, na verdade, o eram.
Quantas e quantas vezes (incontáveis, diria eu) usou de seu inegável prestígio
pessoal para indicar membros de sua "equipe"(como ele chamava seu
grupo de colaboradores) para ocupar cargos de relevo.
Quantas e quantas vezes foi dar seu precioso e sempre ouvido testemunho pessoal
numa causa em que um amigo litigava. E sempre movido pelo senso de Justiça.
Como é fácil perceber, Geraldo Ataliba cumpriu, admiravelmente bem, a missão do
Bom Pastor que, nos falares bíblicos, não desampara suas ovelhas.
E o que não dizer do homem público Geraldo Ataliba?
Nos últimos trinta anos não houve uma luta cívica da qual não participasse com
entusiasmo e desprendimento. Só para citar alguns exemplos, lembro seu
monumental trabalho na Constituinte de 88, feito com desambição pessoal e
idealismo, com prejuízo de sua banca advocatícia, mas de inefável valor para o
País. Lembro ainda sua luta pelas diretas-já pelo impeachment de um presidente
que se revelou indigno da confiança do povo brasileiro; por uma tributação mais
justa, voltada para os interesses das empresas produtivas, geradoras de
empregos.
Ás vésperas de sua inesperada morte, ouvi-o defender a causa dos sem-terra, demostrando,
a partir da Constituição (que ele tão bem conhecia e tanto amava), que famílias
não podiam, com base na letra fria da lei civil, votada nos primórdios do
século, ser escorraçadas com risco da própria vida, das propriedades em que
tentavam fixar-se, em busca de teto e meios de subsistência.
Contam-se às centenas as causas que patrocinou, "de graça", apenas
por amor á Justiça.
Consultor de Prefeitos, de Governadores, de Presidentes, nunca cobiçou
honrarias e cargos. Quando lhe foram oferecidos (várias vezes) recusou-os com
firmeza, dizendo que as glórias não o atraíam.
Homem caridoso (sem disso fazer praça, como nos recomenda Cristo, no Evangelho
de São Mateus), ajudava indigentes, trabalhadores humildes, pessoas idosas e
doentes, en suma, os "feridos deste mundo"
Geraldo Ataliba foi, ainda, um grande Reitor da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. E isto, de 1. 973 a 1976, em plena ditadura militar que
enfrentou com altivez e destemor.
Eu me lembro muito bem. Naqueles dias, amordaçados, os jovens e os intelectuais
de todo o país viam na PUC de São Paulo uma tábua de salvação. Um oásis
abençoado. Por isso, acudiam em massa á Instituição.
Vinham de todos os rincões do País, das lutas contra a repressão, dos comícios
clandestinos, das células da liberdade, das barricadas do sonho.
Eram tempos de turbulência.
Os que vinham buscar abrigo na PUC tinham um objetivo comum: a volta do
Estado-de-Direito. Para alcançá-lo, estavam dispostos a enfrentar o Poder.
Assim, infundiam medo nos órgãos da repressão que os vigiavam, infiltravam
"agentes" entre eles, não se constrangiam em exigir
"informações" da Reitoria e, especialmente, do Reitor.
E aí entra a figura maiúscula de Geraldo Ataliba. Ao invés de colaborar, de ser
conivente com as autoridades de então, sonegava-lhes informações e, com risco
da própria liberdade, avisava os procurados a perseguidos, para que se pusessem
a salvo.
Mais: corajosamente exigia que os agentes da repressão respeitassem, o mínimo
que fosse, a dignidade da pessoa humana.
Esta atitude desassombrada trouxe a Sua Excelência muitas críticas e dissabores,
mas rendeu-lhe a admiração e o respeito de todos os que, como eu, testemunharam
aqueles dias de chumbo.
Muitas outras qualidades tinha Geraldo Ataliba. Enumerá-las todas seria um
nunca-acabar de registros e elogios. Mas o que acabo de dizer-penso eu-revela, ainda
que palidamente, a estatura intelectual e moral de nosso homenageado. Afinal, como
diz o ditado, "pelo dedo se conhece o gigante"(ex
digito gigas).
Para alcançar tais culminâncias, Geraldo Ataliba contou, sem dúvida, com o
apoio precioso de sua bem constituída família. Sua amada esposa e companheira, ANNA
MARIA, seus filhos FERNANDO (aqui presente), EDUARDO e MARIANA e, mais
recentemente, suas noras ROSELI e ALICE e seu genro MARCOS (isto sem falar na
recém-nascida netinha MARINA), deram-lhe a tranqüilidade
e a base de que todos nós precisamos para as lutas do dia-a-dia.
Com a prematura morte deste homem admirável, perdemos um pai, um irmão, um guia,
um modelo. Mas Geraldo Ataliba deixa, a todos nós- mas principalmente aos
formandos de 1995-, um exemplo a ser seguido.
Afinal,
Enquanto houve injustiça social,
Enquanto a Constituição não for obedecida,
Enquanto houver homens sem-terra, sem-saúde, sem-direitos,
Enquanto houver arbítrio fiscal, Enquanto as minorias forem amordaçadas,
Enquanto sonhos de cidadania não passarem de simples sonhos,
Estará sempre combatendo, a nosso lado, o grande GERALDO ATALIBA